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A Banda do Salete

Quando estava iniciando a sétima série no Laudelino Freire, tive um sério problema com o professor de OSPB, Sargento Farias, que injustamente achou que eu tinha agredido uma garota. Procurei os meus pais, que, conhecendo o meu comportamento, ficaram do meu lado quando afirmei que não estudaria mais naquele colégio. Padre Mário, apesar de não concordar comigo, pediu-me para que não saísse. Mesmo assim, preferi ir estudar em Aracaju. Quando Dona Anselma Montalvão soube o que se passara comigo, solicitou à minha mãe que eu fosse matriculado no Salete. Ali, encontrei a amizade e compreensão de uma pessoa que Lagarto não soube preservar. Quando se aproximava o mês de setembro, Dona Anselma me pediu para organizar uma pequena banda marcial. Juntamente com seu esposo, Fernando, começamos a vasculhar o sótão do colégio em busca de instrumentos deixados por Enio Motta, quando ainda proprietário daquele colégio. Conseguimos alguns instrumentos de fanfarra e uma corneta. Nesse período, comecei a ensinar a garotada os princípios da música. Dona Anselma, a cada dia, interessava-se mais pelo sucesso da banda e, no dia sete de setembro, debaixo de muita chuva, a banda marcial do Salete chamou a atenção do público. No ano seguinte a equipe já estava mais preparada e agora com a presença de Marcos Monteiro, Adonias Libório, Epitácio, Fernandinho Montalvão e tantos outros. Começamos, então, uma verdadeira revolução musical na cidade. Novos toques, fardamento bem desenhado, chapéus bem trabalhados, introduzimos garotas portando flâmulas entre os músicos e fazendo evoluções. A banda passou a ser esperada no desfile, desbancando a tradicional fanfarra do Laudelino Freire. Finalmente, fomos convidados a participar do primeiro concurso de fanfarras em Aracaju. Foram três representantes de Lagarto: o Salete, o Laudelino Freire e o Silvio Romero. Quando o Salete, perfilado na Praça Camerino, viu chegar a banda do Atheneu, toda garbosa, tremeu na base. O maestro da banda adversária, como quem quisesse amedrontar os interioranos, mandou executar um dobrado. Nisso, Paulo Chagas, que já era nosso maestro, não titubeou e gritou: “Vamos dar um esquento!”. Quando a banda do Salete, além de bela e muito afinada, puxou o toque, só víamos os músicos das outras bandas concorrentes correrem para nos assistir. Descemos a Rua Pacatuba, na contramão, até o Palácio do Governo, na Praça Fausto Cardoso, onde estava armado o palanque com os jurados. Não deu para ninguém, chegamos evoluindo e já quase gritando vitória. Algumas horas depois que as bandas de todo o estado se apresentaram, foi anunciado o resultado. Salete em primeiro, Atheneu em segundo e Laudelino Freire em terceiro. Foi uma explosão de alegria e choro. Corri para avisar a seu Fernando, que não teve coragem de viajar para acompanhar a competição, e, quando chegamos à ‘madrugada lagartense’ fomos recebidos por ele, alunos e professores do Salete, numa grande festa. Foram os anos mais felizes de minha vida estudantil.

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