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Brincadeiras de um menino lagartense: O cinema

 tarzancine3376 Brincadeiras de um menino lagartense: O cinema

Entre as várias maneiras de se divertirem, os meninos do Lagarto daquela época do século passado, além dos jogos e brincadeiras comuns a todos, havia uma diversão que era muito apreciada, qual seja, O CINEMA que como sabemos, naqueles tempos no nosso Lagarto era o principal meio de lazer da maioria da população, em função do fato que em sendo permanente, em comparação com O CIRCO, e cuja exibição de filmes diários, possibilitava a todos a assistir aos mais variados tipos de filmes, desde os filmes de comédia brasileiros da “Vera Cruz“ e da “Atlântica”, aos dramas e faroestes americanos, e que em geral eram agradáveis de serem assistidos.

Os filmes que seriam exibidos eram previamente anunciados nos cartazes coloridos em vitrines ao longo da fachada do prédio do Cine Glória, como também em uma grande prancheta de madeira, pintada por um funcionário que, com tinta comum, escrevia em letras bem grandes, o título do filme e logo abaixo os nomes dos principais personagens, e colocava naquela época, esse anúncio, na esquina da Rua Laudelino Freire com Rua Lupicínio Barros.

No caso dos filmes brasileiros, uma das razões de sua preferência, era em geral, pelo simples fato de que grande parte dos espectadores, não sabendo ler as legendas, não conseguia acompanhar naturalmente o desenrolar do enredo filme, quando legendado, e no caso sendo o filme brasileiro, bastava ouvir o diálogo dos personagens, fato este, que não acontecia com os filmes estrangeiros falados geralmente em inglês e cujas legendas mudavam muito rápido, dificultando enormemente o acompanhamento do diálogo entre os personagens por aqueles que, embora se esforçassem, não conseguiam lê-las.

Naquela época havia todo um ritual no funcionamento do cinema na cidade do Lagarto.  No Cine Glória serviço de som do cinema colocava músicas para tocar na parte externa do prédio para atrair o público e depois de meia hora, transferia-o para interior do cinema, até o momento de começar a exibição cinematográfica. Nesse espaço de tempo, o público em geral ficava acomodado nos seus assentos, aguardando a projeção dos filmes, ouvindo as românticas canções, enquanto que alguns rapazes circulavam pelos espaços divisórios dos conjuntos de poltronas, olhando e paquerando as garotas que sentadas nos seus lugares consumiam chicletes Adams e Drops, que eram vendidos por uma moça ou um rapaz que fardado, circulava por todo o ambiente, com uma cestinha retangular de vime cheia de guloseimas pendurado no pescoço. Uma curiosidade era o destino que se dava aos chicletes que após rolarem na boca dos seus consumidores e não apresentassem mais gosto algum, eram descartados de forma indevida no piso do Cinema ou embaixo das suas poltronas.

Antigo-Cine-Glória-restauração Brincadeiras de um menino lagartense: O cinema

As sessões do cinema à noite eram chamadas “soirée” que começava todos os dias pontualmente às 19h45min e nas tardes de sábado e domingo era chamada de “matinée” às 15h45min. Às vezes no caso das sessões à noite nos dias de domingo, abria-se uma exceção e começava a exibição do filme às 20 horas, para possibilitar àqueles que vinham da missa na Igreja Matriz (que terminava em torno desse mesmo horário) caso andassem rápido, chegarem a tempo do seu início.

Era ainda comum naquela época, a atitude de alguns daqueles que haviam assistido ao filme, e ainda emocionados, ao saírem do prédio do cinema, fazerem comentários sobre o desempenho desses ou daquele ator ou atriz, sobre a trilha sonora do filme e mesmo sobre o enredo, ou seja, sobre a estória revelada na película. E nessas ocasiões havia um transbordamento de emoções em torno do final do filme, lamentando o fato do mocinho ou a mocinha protagonista do filme, principalmente, naquelas películas em que um ou outra acabavam morrendo. Era muita lágrima derramada por aqueles espectadores mais sensíveis, durante e depois do filme.

Por outro lado, porém ocorriam alguns momentos de descontração e até hilários, quando apareciam as cenas sensuais de beijos entre os “artistas”, como eram conhecidos os protagonistas principais do filme, produzindo então em consequência, alguns assovios e gritos por parte de muitos da plateia. Assim como, quando acontecia a interrupção da projeção e a tela ficava sem as imagens e nesse momento, grande parte do público gritava “me dê o meu dinheiro!”. Era uma algazarra só.

Um aspecto interessante naqueles tempos no Lagarto, era o fato da maioria das pessoas que buscava se divertir ou encontrar-se com alguém, ia até a Praça da Piedade ou Filomeno Hora. Porém, era no interior do cinema que os jovens encontravam um ambiente mais aconchegante e discreto para marcar um encontro ou conhecer alguém e ali mesmo começar um namoro. E naturalmente aproveitavam o escurinho do cinema para dar, quem sabe, o primeiro beijo na sua garota. E era geralmente assim, na praça ou no cinema, que começava a maioria dos relacionamentos.

Outro aspecto a observar, é aquele que diz respeito à segurança no interior do cinema, a qual era efetuada por policiais militares ou seguranças do próprio cinema, os quais se postavam nas laterais das poltronas com atenção voltada para evitar comportamentos inconvenientes de algum assistente, ou mesmo de evitar a pratica do ato de fumar dentro do cinema durante a exibição.

Antes de começar a exibição do filme em cartaz, abriam-se umas cortinas bem densas ao som sempre de uma mesma melodia e em sequência, apagavam-se as luzes internas do cinema e em seguida ouvia-se um som forte TUM!… Vindo de traz da tela, três vezes em sequência, e ao mesmo tempo, simultaneamente acendiam-se nos cantos laterais superiores do teto da sala de exibição, primeiro luzes brancas, em seguida luzes verdes e depois, acendiam-se as luzes vermelhas e, nesse instante abria-se uma cortina bem fina e surgia a projeção na tela, iniciando-se com a exibição de matérias jornalísticas do “Canal 100”, com notícias de natureza política e de futebol que mostrava naqueles tempos o resumo das partidas de futebol acontecidas no Maracanã, no Rio de Janeiro ou no Pacaembu em São Paulo, revelando para a alegria de todos os presentes, as jogadas dos craques de futebol da época, como Garrincha, Pelé, Nilton Santos e Didi, além de imagens engraçadas de algum torcedor, em particular, nas gerais do estádio maracanã.

Nosso tradicional cinema da época era “O Cine Glória” localizada à Rua Laudelino Freire, antiga Rua da Glória, daí a sua denominação. Depois foi inaugurado o “Cine Pérola”, situado nos fundos da Igreja, porém logo depois foi desativado. Já o “Cine Glória teve longa duração e foi nessa casa de cinema, que foram exibidos os mais diversos filmes, principalmente de produção americana, como por exemplo, “Os Dez Mandamentos”, “O Manto Sagrado”, “Ben-Hur”, “E o Vento Levou”, “A Noviça Rebelde”, além dos filmes de “Tarzan”,” Ursus” e “Masiste”, “Sansão e Dalila”,  estes de grande popularidade, geralmente exibidos no dia de segunda-feira, quando Cine Glória ficava cheio, devido a presença de grande parte de espectadores que vinham dos povoados em dia de feira no Lagarto, quando o Cine Glória exibia os filme de Cowboys e logo após, alguns seriados, cujos capítulos se sucediam nos dias segunda-feira,  sempre com grande sucesso de bilheteria.

Cine-Pérola Brincadeiras de um menino lagartense: O cinema

Uma das brincadeiras dos meninos do Lagarto no século passado, em sua criatividade e imaginação, era construir o seu cineminha particular através da fabricação artesanal de um projetor ou câmera de exibição de fitas de cinema que eles conseguiam através do técnico  que operava as máquinas de projeção do Cine Glória, e que ao fazer alguns cortes nas fitas antes colocá-las no projetor, o que resultava em retalhos dessas, que naturalmente seriam descartadas, mas que para os meninos constituía em importante material, pois já que estavam construindo o seu cineminha e principalmente porque sem essas fitas não poderia inaugurá-lo.

Para tal construção, era necessário que o menino conseguisse uma caixa sem tampa, que poderia ser de papelão ou compensado, medindo em torno de 10 cm x 15 cm, onde se faria duas aberturas retangulares nas suas laterais, na mesma dimensão dos quadrinhos de fita de cinema, de modo que ficassem milimetricamente uma em frente da outra. Uma terceira abertura de forma circular era feita no fundo da caixa de modo a encaixar a lente.

Essa lente, nada mais era do que uma lâmpada elétrica incandescente de vidro transparente da qual, para servir de “lente de aumento”, era retirado com bastante cuidado para não quebrá-la, os circuitos internos de metal e vidro localizados no centro do bojo da lâmpada. Passo seguinte, já com a lâmpada oca, só com o encaixe e vidro, fazia-se a lavagem interna da mesma para remover qualquer resíduo e depois a enchia toda com água bem cristalina vedando-a em seguida. E assim, estava pronta lente que seria colocada entre as duas aberturas da caixa mencionada.

Por último necessitava-se de uma lanterna de pilha, que naturalmente todo mundo tinha em casa. E dessa forma, o conjunto composto da caixinha, a lâmpada oca transparente cheia d’água e a lanterna, se constituíam em verdadeiro projetor que depois de construído, passava a exibir os quadrinhos de cinema numa parede branca ou com lençol branco, preso à parede de algum cômodo, das residências desses meninos lagartenses. Apesar de não ter som, a projeção saía perfeita, e todos ficavam maravilhados.

Alguns desses meninos convidavam os seus amigos e vizinhos para assistirem a projeção das fitas em suas residências e, às vezes, cobravam até ingressos. Era uma brincadeira que se transformava em uma verdadeira festa.

1 comentário

Luiz Fernandes Nascimento

Procurando na INTERNET notícias sobre um colega de infância, deparei-me com esta reminiscência, que, para mim, é como se estivesse acontecendo hoje. É muito bom recordar, mesmo após a passagem de mais de meio século, tudo que foi vivenciado por mim e que jamais vou esquecer.

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