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Pesquisadoras apontam que discriminação não ocorre apenas em atos explícitos, mas também na esfera das relações pessoais, afetivas e do afeto negado

Quando se fala em racismo, é comum vir à mente imagens de agressões verbais, discriminação no trabalho ou violência policial. No entanto, um fenômeno mais sutil e igualmente devastador tem ganhado espaço no debate público: o racismo afetivo. O termo, cunhado e aprofundado por acadêmicas negras brasileiras, refere-se à negação de afeto, atenção, cuidado e vinculação emocional a pessoas negras, resultando em uma solidão estrutural e na perpetuação de hierarquias raciais mesmo nas relações mais íntimas.

De acordo com a psicóloga e pesquisadora Maria Lúcia da Silva, autora de estudos sobre o tema, o racismo afetivo “se manifesta quando uma pessoa negra é sistematicamente preterida em situações de escolha afetiva, quando sua dor é minimizada, quando seus cabelos e traços são rejeitados como indesejáveis, ou quando há um distanciamento físico e emocional baseado em estereótipos”.

Dados de um estudo recente do Instituto Brasileiro de Relações Afetivo-Raciais (IBRAR) mostram que 68% das pessoas negras entrevistadas já se sentiram excluídas de círculos de amizade ou familiares por causa da cor da sua pele. Além disso, 74% das mulheres negras relataram já terem sido rejeitadas afetivamente com justificativas relacionadas a traços físicos ou ao “status social”.

A publicitária Ana Claudia Santos, 32, conta sua experiência: “Já ouvi de um ex-namorado, branco, que eu era ‘bonita para uma negra’. Ele dizia que me amava, mas sempre fazia comentários sobre meu cabelo cacheado, sugerindo que eu alisasse. Na família dele, eu era tratada com uma educação fria, como se eu fosse uma visitante permanente, nunca parte do núcleo”.

A solidão como marca racial
Para a antropóloga Carolina Ribeiro, o racismo afetivo está ligado à construção histórica da subhumanidade do povo negro. “Durante séculos, propagou-se a ideia de que pessoas negras não sentiam dor, não amavam como os brancos, não formavam laços dignos de valor. Isso criou uma desconexão afetiva que ainda hoje se reflete na dificuldade de vínculos igualitários”, explica.

Essa dinâmica, segundo Ribeiro, gera um cenário de solidão específica: a solidão racial. “Muitas pessoas negras relatam se sentir sozinhas mesmo em meio a multidões, porque são constantemente invalidadas em suas subjetividades e emoções”.

O mito da democracia racial e os relacionamentos
O Brasil, que durante décadas se vendeu como uma “democracia racial”, vê essa narrativa desmoronar quando observamos os dados sobre relacionamentos. Pesquisa do IBGE de 2022 mostra que, embora os casamentos inter-raciais tenham aumentado, ainda são minoria. Em 85% dos casamentos formais, ambos os cônjuges são da mesma cor. “Isso não é fruto do acaso”, afirma a socióloga Luzia Campos. “É resultado de uma socialização que ensina, desde cedo, que o afeto tem cor, e que a branquitude é o ápice da desejabilidade”.

Educação afetiva antirracista como caminho
Especialistas defendem que o combate ao racismo afetivo exige uma mudança profunda na forma como as relações são construídas. “Precisamos falar sobre afeto nas escolas, discutir representatividade nas novelas, nos livros, e refletir sobre nossos próprios vieses inconscientes”, diz Maria Lúcia da Silva. Projetos como “Afeto Preto”, desenvolvido em escolas de Salvador, trabalham a autoestima de crianças negras e promovem conversas sobre empatia racial desde a infância.

O racismo afetivo revela que o preconceito não precisa ser gritado para ferir. Ele pode ser um silêncio, uma rejeição discreta, um elogio que diminui, um toque que nunca vem. Reconhecê-lo é essencial para que o antirracismo não seja apenas um discurso político, mas uma prática cotidiana de humanização. Como resume Ana Claudia: “Não queremos só não ser mortas. Queremos ser amadas”.

O que é racismo afetivo?

· Rejeição ou desvalorização de pessoas negras no campo das relações íntimas, familiares e de amizade.
· Minimização da dor e das emoções de pessoas negras.
· Preferência afetiva por pessoas brancas como padrão inconsciente.
· Comentários e micro agressões que invalidam a beleza, cultura e subjetividade negras.

Fonte: Coletivo de Pesquisadoras sobre Afeto e Relações Raciais (CPARR).