Brincadeiras de um menino lagartense: a arraia
Depois de “Boi de Barro”, “Bolas de Marraio” e “Furão”, venho narrar, agora, uma outra brincadeira que era muito comum entre os meninos do Lagarto da minha época (décadas de 50 e 60 do século passado), que era soltar ou empinar “arraia”, também conhecida em outras localidades como “pipa” ou “papagaio”. Tal brincadeira consistia, inicialmente, na construção da “arraia” que exigia destreza dos seus construtores, pois nem todos sabiam fazê-la com perfeição, já que pela sua característica e leveza, necessitava de mãos ágeis, firmes e até uma certa delicadeza. Para a construção era necessário localizar palha de coqueiro que não fosse muito seca nem muito verde, de forma a utilizá-la raspando as suas folhas até obter as varetas bem finas e firmes que serviriam para construção da estrutura da “arraia”. Pegando-se as varetas de palha de coqueiro e depois definindo o tamanho e forma da mesma, cortavam-se as varetas amarrando-as com cordão nas extremidades e, como passo seguinte, fazia-se o revestimento da estrutura, em papel ou tecido bem fino, que era colado com goma arábica (para quem podia adquiri-la) ou goma feita de tapioca, para dar leveza à “arraia”. Em seguida, num terceiro passo, era necessário arranjar tiras ou sobras de tecidos, preferencialmente coloridos, para fazer o rabo da “arraia”. Para tanto, os meninos dirigiam-se às casas das costureiras conhecidas e solicitavam que lhes dessem as sobras ou retalhos te tecidos sem mais utilidades para elas, mas que eram de grande utilidade na feitura do referido “rabo”, que era produzido a partir das tiras de tecidos emendadas umas às outras, num tamanho proporcional ao da “arraia” que estava sendo construída, fato essencial para o equilíbrio, ou seja, para a sua aerodinâmica. A última etapa da construção da “arraia” era a colocação da linha de carretel, que exigia conhecimento e experiência, pois não era apenas amarrar um cordão e sair empinando a “arraia”. Era necessário que fosse feito com alguns pedaços da mesma linha que serviria para empiná-la, uma espécie de “cabresto” em forma de triângulo e, a partir deste, amarrava-se a ponta do carretel de linha, pois só assim teria condições de voar. Depois de tudo pronto, era a hora de experimentá-la levando-a a algum lugar aberto e que tivesse bastante vento. Depois do teste, fazia-se, quando necessário, os ajustes no “rabo” ou no “cabresto” e partia-se para soltar a “arraia” junto aos demais meninos, procurando, cada um, empinar a sua “arraia” o mais alto possível e tendo o cuidado para não embaraçá-la, com as dos seus companheiros da brincadeira. Um último aspecto interessante nessa brincadeira era quando a mesma transformava-se em competição para ver que empinava o mais alto, ou quem conseguia derrubar as “arraias” dos seus competidores. Para tanto, era comum já naquela época, o uso de uma resina à base de goma com vidro triturado, chamado de “cerol”, que era utilizada para revestir a linha da “arraia” e, assim, em contato com as linhas das “arraias” dos outros meninos, as cortassem derrubando-a e, consequentemente, eliminando-o da competição ou brincadeira. Tal prática ao longo do tempo, tem-se mostrado além de antidesportiva, uma atitude perigosa quando essas linhas das “arraias” com o cerol, em contato com a rede elétrica, pode provocar acidentes sérios, ou mesmo quando as linhas com o “cerol” ficam estendidas ao longo das vias públicas podem produzir graves acidentes com pedestre, ciclistas e motociclistas, causando-lhes, em alguns casos, até risco de morte. Atitude que, naturalmente, deve ser evitada.
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