Mais que ouro: a força silenciosa e potente das mulheres negras que constroem Lagarto
Elas ocupam todos os espaços: das pistas de competição aos salões de beleza, da comunicação aos palanques políticos. Em uma cidade que carrega as marcas de um passado escravista, as mulheres pretas lagartenses vêm escrevendo uma nova história, feita de resistência, talento e representatividade.
Lagarto já foi palco de uma estrutura onde o corpo e a existência da mulher negra eram relegados à invisibilidade e ao trabalho braçal. Os registros históricos mostram um passado de luta e sobrevivência, mas o presente revela uma realidade transformada por aquelas que decidiram pedalar, falar, empreender e liderar .
Hoje, a força da mulher preta lagartense não está apenas na memória da ancestralidade, mas na ocupação de espaços antes inimagináveis.
Um exemplo recente que fez o nome da cidade ecoar no pódio veio sobre duas rodas. A ciclista Aylla Calasans não apenas representou Lagarto na tradicional competição Norte e Nordeste de Ciclismo, em Senhor do Bonfim (BA); ela fez história. Única representante de Sergipe em um pelotão de 67 atletas, Aylla conquistou o 4º lugar na categoria Elite Feminina, enfrentando 82 quilômetros de serra .
“Fiquei entre as quatro melhores do Norte e Nordeste, algo que até hoje nenhuma mulher de Sergipe ou de Lagarto tinha feito”, comemorou a atleta, que agora ocupa a 4ª posição no ranking nacional. Mais do que a performance esportiva, Aylla abre caminho para que outras meninas negras enxerguem no esporte um lugar de pertencimento e conquista .
Se no esporte a pedalada é firme, na comunicação a voz é igualmente potente. Elissandra Santana, servidora pública e afrocomunicadora, tem sido uma presença constante na mídia sergipana com um olhar que vai além da superfície. À frente do programa “Agora que São Elas”, na Rádio LagarttoFM, Elissandra levou a cobertura afetiva e a representatividade negra para o Carnaval de Sergipe, entrevistando grandes nomes da música e, principalmente, dando visibilidade a histórias que muitas vezes são invisibilizadas pela grande mídia .
Seu trabalho transcende a comunicação. Em 2019, Elissandra foi selecionada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para uma missão humanitária de combate ao racismo e, recentemente, foi eleita delegada para representar Lagarto na Conferência Nacional da Igualdade Racial, em Brasília. “A gente chega a Brasília com a responsabilidade de levar as vozes da nossa comunidade”, afirmou . Em uma entrevista marcante, ela definiu a realidade local com uma frase contundente: “Em Lagarto, o racismo é disfarçado de boa ação”, conclamando as mulheres a ocuparem espaços e denunciarem as violências veladas .
A ocupação desses espaços também passa pela estética e pelo direito de existir com beleza e autoestima. No salão, Sônia dos Santos faz mais do que cortar cabelos. Como cabeleireira, ela entende que o cuidado com o cabelo crespo é um ato de resistência e de resgate de identidade. Em um município que só recentemente, em agosto de 2025, realizou a sua I Conferência Municipal da Igualdade Racial, a valorização da estética negra nos salões de bairro é uma trincheira diária de afirmação “Sou mulher, sou negra e estou aqui para afirmar, com orgulho, que Lagarto tem povo negro e tem povo negro com representatividade”, declarou Sônia.
A representatividade também desfila com elegância e tradição. Maria Cecília, ao ser coroada Rainha do Festival da Mandioca, carrega não apenas a faixa, mas a força simbólica de uma jovem mulher preta ocupando o posto de destaque em uma das principais festas populares da cidade. É a imagem da cultura popular sendo reverenciada por aquela que é a sua própria essência.
E quando o assunto é garantia de direitos, a voz jurídica de Deiseane Santos se levanta. Como advogada, ela representa a intelectualidade e a luta institucional, mostrando que a justiça também pode ter a cor e a face da mulher lagartense.
Juntas, Aylla, Elissandra, Sônia, Maria Cecília, Deiseane e tantas outras anônimas formam o retrato de um Lagarto que se reconhece, se fortalece e se projeta. São mulheres que enfrentam os dados estatísticos que ainda insistem em colocar a mulher negra na base da pirâmide social e transformam a realidade na base da resistência, da competência e do orgulho de suas raízes.
Elas são a prova de que a verdadeira força de uma cidade está na diversidade daquelas que a constroem diariamente.


