Vamos falar de Adoção?
Adotar é um ato de coragem disfarçado de generosidade. Quem entra nesse caminho muitas vezes acha que está apenas oferecendo um lar; não sabe ainda que está, na verdade, recebendo uma nova versão de si mesmo.
A adoção não preenche um vazio, ela cria novos espaços. Espaços para o imprevisível, para o afeto que não veio do sangue mas chegou pelo tempo, pela convivência, pela escolha diária de permanecer. É a construção lenta de uma confiança que dispensa genética.
Para a criança ou adolescente que espera, ser adotado é muito mais do que ganhar uma família. É deixar de ser um número em um cadastro, um nome em uma lista. É, finalmente, poder responder à pergunta “quem é você?” não pelo que se perdeu, mas pelo que se ganhou. É ter um colo para chamar de seu, um passado que começa a ser reescrito e um futuro que, enfim, pode ser sonhado.
Para quem adota, a transformação é igualmente profunda. Pais e mães por adoção descobrem que amar não tem a ver com semelhanças físicas ou traços herdados. Tem a ver com acordar de madrugada para aquecer a mamadeira, com segurar a mão no primeiro dia de aula, com aprender juntos a lidar com a raiva, o medo e o encantamento. A paternidade e a maternidade deixam de ser biologia e passam a ser biografia.
Claro que não é um conto de fadas. A adoção verdadeira, a que transforma, vem com dores que não se apagam, com perguntas que talvez nunca tenham resposta, com a necessidade constante de acolher uma história que não começou ali. Mas é justamente nesse acolhimento que mora a beleza: na decisão de que o amor não precisa ter origem; ele só precisa ter destino.
Mudar a vida de alguém pela adoção é, no fundo, aceitar que essa vida também vai mudar a sua. É descobrir que família não é um ponto de partida, mas uma construção diária. E que, às vezes, o encontro mais importante da sua vida começa não com um grito de nascimento, mas com um sim diante de um juiz.
Na foto: Darticléa Almeida e sua filha adotiva Elissandra Santana